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Picos de Europa de mota… e a 2…
Apesar de apenas termos começado, qualquer transeunte já olha para nós como alienígenas, vindos de outro espaço. Ainda que o motociclista já faça parte da nossa cultura, não sendo já algo que se via exclusivamente nos ingleses e alemães, nas suas BMW R100 e fatos de cabedal pretos a fazer as suas migrações a sul da Europa, ainda existe um misto de curiosidade e até de uma certa inveja, pelos conceitos de irreverência e liberdade associados à cultura motard (esses malucos das motas).
“- Porta-te bem, filho! Tu, filha, juízo! E divirtam-se!”
Finalmente lá transpusemos a porta dos Picos de Europa. Nada que enganar, qualquer placa é explícita e não deixa possibilidade de falhar o destino, mesmo sem mapa ou GPS, é sempre em frente (“sempre em frente” não é bem o caso, pois não há troço de estrada com recta superior a 200 metros). Subir, subir, curva, curva. O cenário revela-se grandioso e neste momento a Carla vence o medo de largar a pega do passageiro e pede-me a máquina fotográfica para ir registando, em movimento, alguns momentos e vistas com que nos deparávamos.
Chegámos a Santa Cueva, uma capela junto à estrada em direcção ao santuário. A capela é construida no alto de uma rocha alcançável por uma escadaria e ladeada por uma queda de água com vista privilegiada para o santuário de Covadonga, como que em antevisão ou espécie de antecâmara da basílica (se se pode assim chamar).
500m mais acima chegámos ao Santuário, uma basílica de estilo neo-românico de pedra rosa e mármores extraídos ali das montanhas de Covadonga. Tirando alguns Bus repletos de turistas e a musiquinha dentro da Basilica (um cântico completamente desapropriado para quem, julgo eu, quisesse orar em paz). A envolvência era uma imensidão de verde tranquilizador. Também por lá estava uma estátua do príncipe visigodo Pelayo (espécie de D. Afonso Henriques de nuestros hermanos) a saudar-nos as boas vindas.
De repente temos fila de trânsito... Estranho! Era então um cão pastor a levar seu rebanho de ovelhas e cabras a pastar. Pastor nada, o cão dominava por completo. O nevoeiro começa a tomar conta da estrada e à chegada aos Lagos, nada vimos além de um manto branco.
De volta a Cangas, um último olhar sobre a ponte romana e um adeus. Rumámos a Riaño pela N-625. Que bela estrada, 60km de pura diversão. Ideal seria fazê-la sozinho e sem malas, mas talvez tenha sido melhor assim, pois poderia ter dado vontade de cometer alguns excessos (não de velocidade, pois essa não dava, mas de condução espirituosa).
Depois de tanto tempo a curvar, num simples virar de esquina somos brindados com uma vista lindíssima que é a chegada a Riaño, qualquer ponto de paragem permite uma foto digna de postal.
Começámos a descer para Potes e parámos num miradorouro de que não me recordo o nome, mas que tinha um estátua de uma cerva (a mãe do Bambi imortalizada lá no sítio) e mais uma vez uma vista até perdê-la.
Seguimos pela “marginal” (N-634) até que, antes que ela nos levasse para o interior, virámos à esquerda para a CA-131 até Comillas. Ficámos de boca aberta, Comillas deve ser das vilas do litoral mais conhecidas aqui da Cantábria banhada pelo oceano, totalmente virada para o turismo de veraneio, mas já de longa data. Uma “Vila de Cascais” aqui da zona. Destino de praia de gente rica desde o início do século passado, de certeza pois as casas, casarões, mansões enormes são de uma arquitectura pitoresca apalaçada e super bem mantidas. Aqui, o cemitério é um dos ex-líbris com o seu anjo a proteger os seus habitantes.
Para finalizar o dia, acho que melhor paragem não poderia ser. É, de certeza, uma das localidades de maior valor histórico de Espanha, autêntico tesouro arquitectónico românico, uma vila totalmente virada para o Turismo, parada no tempo. Carros, só para carga e descarga de material. Museus, Igrejas, restaurantes e lojinhas, todas muito bem integradas.
Após conselho e discussão dos prós e contras, decidimos não ir até Biarritz e Pamplona. O receio de não chegar a casa no sábado, no máximo ao final da tarde era uma realidade. Hoje é 5ª feira e, ao ritmo que temos andado - cerca de 350Km de média diária - e uma distância ainda por percorrer fez-nos apontar, ou direi melhor, encurtar a volta pensada inicialmente. Como o objectivo principal era os Picos de Europa, já estávamos satisfeitos, mas já que ali estávamos, ir mais além era o nosso desejo.
Como só tínhamos de deixar o quarto ao meio dia, aproveitamos a manhã para os regallos para a família e amigos. Decidimos comprar chocolate para todos. (brillhante ideia, como iremos comprovar mais a frente durante a viagem…) uma t-shirtzita para a nossa Ratazana (João – 3 anos) http://www.kukuxumusu.com/index.php/es/tienda-online/colecciones-especiales/montana/Desfiladero-DC0RLWG7350 e uma pulseira com estrelas celta para a Maria (14 anos). Uma sessão foto pela vila aproveitando a luz e pouca passagem de turistas.
Nesta fase todos os destinos de passagem intermédios são de alcance rápido, é tudo 60km um dos outros, a viagem parece nos rápida, também não fosse o não termos nada programado “pós-Picos” de interesse no regresso. A ideia era mesmo a costa norte de Espanha e regressar.
Qualquer paragem é a torreira. Neste momento estamos numa estrada em paralelo de cerca de 60/80km salvo erro com a A1-E5 que liga Burgos a Madrid. Para quem já fez viagens vindo de França/Bordéus/Biarritz deve conhecer. Como não queríamos fazer Auto Estrada e ir conhecendo Espanha vila a vila e pararmos onde achássemos interessante, foi o que fizemos.
De Segóvia a casa temos agora mais coisa menos coisa.. 650km. O que justificou a redução de percurso a norte e 2 dias para os efectuar. Mantendo a média estava tudo certo. Para amanhã e para reduzir “escaldões” decidimos arrancar mais cedo e fazer caminho aproveitando a manhã, pois a tarde era uma incógnita. Casa era a meta.
Chegámos ontem ao final da tarde. Os chocolates que comprámos para oferecer, acabaram numa taça transformados numa mousse de chocolate divinal, tal fora o calor.
8h da manhã. Pensamento do dia: andar o máximo de manhã, enquanto não está tanto calor. Não eram 10h já estávamos em cima da bifa a partir pela N-110 a caminho de Ávila. Planícies e rectas foi a nossa realidade. Nem sei bem como definir esta fase, se bom se mau. De toda a maneira, estávamos com “casa” em mente, ou por cansaço ou pelo calor, ou porque de facto depois da experiência pelos Picos de Europa as estradas ficaram entediantes. Qualidade impec, nada a dizer. Tomaram as nossas nacionais terem a manutenção das estradas espanholas. Já sentimos o calor a subir... e vem para ficar.
Acabando a voltinha ao carrossel, parámos numa esplanadinha de um hotel a beira de estrada para beber mais qualquer coisa e perder mais uns líquidos extra suor devido ao calor que fazia se sentir (lá passa o senhor do Porsche!) Nesta paragem o vale é lindissimo mas ouvimos tiros de caçadores e cantos de aves, uma situação estranha pois parecia uma gravação em loop que tocava com ritmo vezes sem conta. Aqui apercebemo-nos que os chocolates estavam... errr, pois... isso... derretidos! Pensando bem, mas quem é que no seu perfeito estado de consciência e lucidês compra 5 ou 6 tabletes de chocolate para oferta e os enfia num alforge durante horas ao calor? Devíamos estar a pensar que a loja era algum free-shop e íamos de avião com ar condicionado. Dahhhhh!!!! Hello Flávio, onde estavas com a cabeça???!!
Depois de Tornavacas entrámos no Vale do Jerte que deve ser o local de produção de cereja em Espanha. Havia terraços de cerejeiras por todo o lado, já não em flor, mas com frutas prontas para a colheita. Todas as casas tinham “banquinha” no portão a indicar venda.
A N-630, de repente, leva-nos finalmente a um português, não estava fácil. Seu nome é Tajo nesta bandas que, passando a fronteira passa a Tejo.
Passámos por umas grandes bacias do Rio Tejo, foi espectacular, e com o calor confesso que ainda pensei: páro e improviso um mergulho. Mas não... “Missão Casa” era o objectivo principal nesta fase da viagem. E ainda era “It's a long way home”.
Os planos eram para sairmos cedo e chegarmos a casa o mais cedo possível. Quando “voltamos da festa” é assim. Fizémo-nos à estrada o que, durante a manhã até foi agradável, sobretudo ao descermos uma zona de montanha, bem íngreme, por estrada de curvas bem fechadas. Era uma região de caça, onde os sons dos tiros ecoavam intercalados com o canto das aves. Neste troço, até Plasencia, o ganha-pão destas povoações é a cereja. Nunca eu tinha visto tanta cerejeira, plantadas pelos socalcos destes montes do Vale do Jerte.